Café das 23h37

Ei, quando doer no coração, não se lance à dureza da mágoa. Afaste-se, procure um abrigo improvável, afague fotografias sem culpa alguma. Estoque afetos, tangentes, certezas. Reinvente absurdos. Vista sua mentira mais bonita. Rompa com a ideia de ontem. Ou pelo menos, finja. Dói! Eu sei, compreendo que dói. Mas, então? Qual é o plano? O mesmo? Você não sente falta de ouvir sua canção favorita sem chorar? Você já ouviu sua canção favorita alguma vez sem engolir em seco, sem contrair os lábios trêmulos, sem se sentir caindo do décimo andar de si mesmo? Não! Você é um desastre na arte de raciocinar! Você é como eu, intenso, noturno, frágil demais. Você é, com certeza, o pior  jogador de Xadrez que já existiu. Você não abre mão da solidão dos sábados, nem de ouvir Clube da Esquina até ‘desamanhecer’. Você é como eu, tem medo de tudo. Tem um incrível medo de amar e se perder sorrindo. Não fabrica os precipícios que deveria. Não se entrega aos que são inerentes a ti. Qual é a tua? Qual é a tua, ham? Você não se cansa de ser essa porta estúpida e frígida? Cadê tua força?  Cadê teu encanto? O que fizeram com o poema dos teus olhos? Não era esse o tipo de comportamento que você sempre criticou nas pessoas? Tuas repulsas não parecem espelhos agora? Cadê o sonho de conhecer Lisboa? E os livros de Douglas Adams? Não vê, eles são você! E você está por aí, escondido nas gavetas da própria alma, feito angústias invisíveis. Eu te imploro que não fracasse. Teus sonhos são tão magníficos e possíveis que você talvez nunca tenha acreditado o bastante neles. E essa inconstância só te fere a ferro e fogo, pouco a pouco, dia a dia. Sabe qual é o teu maior pecado? É ser todo coração.

Ithalo Furtado
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